O aprender não é um processo que ocorre apenas na mente, antes de uma criança começar a aprender a ler e a escrever, ela precisa explorar os espaços ao seu redor e desenvolver uma consciência sobre o próprio corpo.
O corpo é o principal espaço de aprendizagem, é ele quem expressa a forma como o sujeito se coloca no mundo e como lida com as diversas exigências da alfabetização.
A consciência corporal começa a se desenvolver desde os primeiros momentos de vida. O gesto de sugar o dedo, morder o pé, balançar os braços, movimentos aparentemente simples que são na verdade, os primeiros sinais de uma relação entre corpo, movimento e aprendizagem. É nesse momento que a criança começa a conhecer as partes do seu corpo e a perceber como ele lhe permite agir sobre o mundo e sobre as pessoas ao seu redor.
À medida que a criança cresce, seu esquema corporal vai se ampliando, abrindo espaço para novas descobertas: o equilíbrio se afina, a coordenação motora se desenvolve, a noção de lateralidade( saber distinguir o lado direito do esquerdo) vai se consolidando. Tudo isso contribui diretamente para que a criança esteja preparada para aprender.
A consciência corporal também expressa o domínio sobre o espaço e o lugar no mundo. As referências que o sujeito constrói sobre si mesmo vão permitindo que ele se conheça, reconheça suas capacidades e se abra para novas aprendizagens. Mas o que acontece quando esse processo tem falhas? Como fica a formação do sujeito quando o corpo é ignorado no caminho do aprender?
Ambientes que exigem horas de imobilidade, silêncio forçado e atenção puramente visual trabalham contra a própria experiência de aprendizagem. O movimento oxigena o cérebro, a experiência sensorial torna concreto aquilo que é abstrato, o ritmo, a respiração e o tônus muscular influenciam diretamente a disposição para aprender.
O psicólogo e pedagogo Henri Wallon entendia o ser humano como uma pessoa completa, na qual os aspectos cognitivo, emocional e motor estão integrados e se desenvolvem em relação com o meio. Para Wallon, o ser humano é, ao mesmo tempo, orgânico e social: sua estrutura biológica precisa do contato com a cultura e com o outro para se constituir como sujeito.
Nessa perspectiva, o movimento é o início da vida psíquica e do processo de desenvolvimento. Ele tem um papel pedagógico fundamental, pois mobiliza a afetividade, estimula a criação de representações mentais e organiza as condições para que novas aprendizagens aconteçam.
Reconhecer o corpo como parte central da aprendizagem é reconhecer que aprendemos inteiros, com a mente, com as emoções e com o corpo em movimento.

Texto por: Flavia Fauquet – CRP 06/104402