Em seu livro “O despertar do tigre”, Levine relata que a cura do trauma está em nossa fisiologia. Tomando como exemplo animais selvagens, o autor explica que diante de situações ameaçadoras, tendemos a uma resposta de imobilidade, o que reflete no nosso sistema nervoso, isso porque nosso corpo tende a se preparar para lutar, fugir ou congelar, e se essa energia mobilizada diante da ameaça não é descarregada, como acontece de forma natural nos animais, ela fica presa em nosso sistema nervoso, criando sintomas traumáticos.
O autor acredita que os sintomas traumáticos não são causados pelo acontecimento em si mesmo, mas sim pela energia que não foi descarregada e resolvida, assim, mediante a resposta que o sujeito tem frente à ameaça, vai dar curso a forma como o trauma se estabelecerá, a pessoa na verdade pode ficar presa em estados de hiperativação (ansiedade, hipervigilância), ou hipoativação (entorpecimento, dissociação).
O autor descreve que é difícil definir o trauma, mas que conseguimos identificar experiências traumáticas através de sintomas, reações, sensações, sonhos, flashbacks, memórias. Descreve ainda, que o necessário para a cura é evocar nossos recursos fisiológicos profundos e utilizá-los de modo consciente, pois acredita que o trauma não é apenas psicológico, em que se foca apenas na memória ou narrativa do evento traumático.
Para resolver o trauma, o autor pontua que três dimensões precisam estar integradas, o instinto, a emoção e o pensamento, quando estas dimensões estão em harmonia, nosso organismo funciona na forma como deveria. Antes de trabalhar com o trauma, é necessário que se possa desenvolver recursos e experiências de segurança, força e competência que estabilizem o sistema nervoso.
Nossa desconexão de nossa sensopercepção faz com que nossas emoções flutuem e nossa energia fique contida no corpo, pequenas mudanças nas sensações corporais podem ter efeitos profundos na resolução do trauma.
Assim, o autor observou que animais na natureza apesar de enfrentarem situações de vida ou morte constantemente, raramente desenvolvem trauma, os humanos por outro lado, devido sua capacidade de racionalizar e de ser tanto a vitima como o algoz, e pela memória ancestral, podem ficar traumatizados por eventos diversos, mesmos os que são considerados menos graves, a diferença está na forma como processamos fisiologicamente tais experiências.

Texto por: Flavia Fauquet – CRP 06/104402