Psicóloga

O que nos torna humanos?

Recentemente assisti ao K-drama “Flor do Mal” na Netflix, e a série me provocou algumas reflexões: o que nos define como humanos? Do início ao fim, a narrativa entrelaça suspense e dilemas morais, provocando questionamentos sobre nossa natureza humana. 

O protagonista, Baek Hee-sung, é envolto em mistério e carrega um passado sombrio marcado por traumas familiares e suspeitas de psicopatia. Suas dificuldades em habilidades sociais e comportamentos que desafiam as normas sociais esperadas, nos fazem questionar sua humanidade. 

O drama nos mostra como temos uma necessidade de categorizar e explicar a natureza humana, ao mesmo tempo que expõe nossa tendência à generalização e polaridades. Queremos encaixar as pessoas em rótulos, bom ou mau, normal ou anormal, humano ou monstro. O protagonista, porém, não se comporta “dentro da caixinha”, sua história de vida leva muitos personagens (e espectadores) a considerá-lo um ser desprovido de alma, quase animalesco em sua suposta falta de emoções. Mas à medida que os episódios avançam, a série nos coloca em um impasse: ele é produto de suas experiências traumáticas ou sua natureza biológica o predeterminou a ser assim? 

Tradicionalmente, consideramos que nossa humanidade reside em capacidades específicas, pensamos e refletimos sobre nossa própria existência (o que chamamos de metacognição), criamos sistemas abstratos de significado que nos permitem transmitir ideias complexas, desenvolvemos cultura e acumulamos conhecimentos diversos através de gerações. Nossa razão, criatividade, capacidade de resolver problemas e de articular pensamentos e sentimentos através da linguagem nos distinguem. 

O drama realiza um jogo narrativo fascinante, contrapondo constantemente o lado instintivo e primitivo do ser humano ao seu lado “civilizado”. De um lado, há o protagonista que ocasionalmente dá voz à sombra, ao lado obscuro que todos possuímos mas preferimos reprimir. De outro, vemos um homem que age com ternura inesperada, cuidado genuíno e até sacrifício próprio. Essa dualidade nos força a reconhecer que não podemos entender a natureza humana apenas pelo viés da funcionalidade ou racionalidade.

Somos seres multifacetados: não apenas nossa capacidade de raciocínio, criação, resolução de problemas e comunicação nos definem, mas também nossa linguagem emocional, os significados que construímos, nossas contradições internas e, crucialmente, a natureza instintiva que tanto insistimos em negar ou reprimir. “Flor do Mal” sugere que talvez nossa humanidade resida nessa tensão constante entre impulsos primitivos e escolhas conscientes, entre nossos traumas e nossa capacidade de transcendê-los, entre quem fomos condicionados a ser e quem escolhemos nos tornar.

Não existe uma resposta simples ou definitiva para o que nos torna verdadeiramente humanos. Essa questão tem sido debatida por filósofos, neurocientistas, psicólogos e artistas há séculos, e continua sendo cada vez mais relevante em nosso presente, especialmente em uma era que a  inteligência artificial ultrapassou fronteiras além do que imaginávamos. “Flor do Mal”  nos presenteia com algo valioso: a oportunidade de questionar nossas próprias certezas sobre a natureza humana e reconhecer que, talvez, seja justamente nossa capacidade de conter contradições, de evoluir apesar de nossas limitações e de escolher o amor mesmo quando seria mais fácil ceder à escuridão, que nos torna profundamente, complexamente humanos.

Texto por: Flavia Fauquet – CRP 06/104402

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